A poluição dos relâmpagos

Qual o impacto dos relâmpagos sobre a poluição atmosférica mundial? Caso você ache estranha essa pergunta, saiba que um grupo de pesquisadores brasileiros e estrangeiros está, desde o inicio de janeiro, envolvido numa pesquisa mundial que tem como um dos seus objetivos responder exatamente essa questão.

Trata-se do projeto Hibiscus, coordenado no País pelo instituto de Pesquisa Meteorológica (IPMet), da UNESP em Bauru (SP) em parceria com a Comunidade Européia, por meio de duas organizações, a Comissão Nacional de Estudos Espaciais (CNES) e a Comissão Nacional de Pesquisa Espacial (CNRS). Dentre os paises participantes, estão Alemanha, Dinamarca, Estados Unidos, França, Inglaterra, Itália, Japão, Noruega, Suíça e Rússia.

Ao todo, somente no Brasil, são dez instituições de pesquisa, com a participação direta de 200 cientistas.

De acordo com o professor Roberto Vicente Calheiros, diretor do IPMet e coordenador do projeto, o impacto dos relâmpagos na troposfera – camada da atmosfera abaixo de 15km de altitude – gera, entre outros, um gás chamado óxido de nitrogênio.

É o mesmo gás emitido ao lado de várias outras substâncias, pelos motores de carros e aviões, e que contribui para desestabilizar o Efeito Estufa – fenômeno natural que garante a manutenção de uma temperatura que possibilitou a existência de vida na Terra.

Nos últimos anos, graças principalmente às variações climáticas que se verificaram no Planeta, vários paises, entre eles o Brasil, vem buscando alternativas para controlar a emissão desses poluentes na atmosfera.

É o caso, por exemplo, dos gases que contém cloroflúorcarbono, os chamados CFCs, muito utilizados em sprays e sistema de refrigeração. Liberados na atmosfera, eles são um dos principais vilões da camada de ozônio, que protege a Terra dos nocivos raios solares.

Balões

Entretanto, essa poluição, provocada pela sociedade humana, pode ser chamada de artificial. A poluição natural, pelo menos no tocante aos óxidos de nitrogênio, é também oriunda das descargas elétricas, os relâmpagos.

E nesse sentido, o Brasil é um dos melhores países em todo mundo para o estudo desse fenômeno que tem implicações que podem afetar a agricultura à indústria do turismo.

Por ter uma das altas taxas planetárias de incidência de raios, o País é palco dessa importante pesquisa, que utiliza uma série de balões atmosféricos para medir os vários gases exitentes nas diversas camadas de nossa atmosfera.

Segundo o professor Calheiros, pesquisas recentes demonstraram que mesmo com a diminuição dos escapes de gases oriundos de carros e aviões, "não há queda significativa nos óxidos de nitrogênio" . Para os pesquisadores, isso se deve aos relâmpagos.

"Entender melhor essa relação é fundamental, por exemplo, para que tenhamos previsões climáticas mais acuradas. Além disso, aprendemos mais sobre como se dá o transporte e poluentes ao redor do Planeta", explica.

Pesquisas recentes demonstraram que a poeira oriunda de atividade industrial na Europa e Ásia é levada pelas correntes de ventos e atinge as Américas. Dados mais antigos revelam, por exemplo, que tempestades no deserto do Saara (África) são capazes de dispersar areia na Europa e parte do continente americano.

Cidades "produzem" raios

O Brasil tem a maior incidência mundial de raios. A estimativa é do Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAt) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), sob coordenação do pesquisador Osmar Pinto Junior. O estudo indica a ocorrência de duas a três descargas elétricas por segundo, o que perfaz um total de 100 milhões de relâmpagos a cada ano no Pais – contra cerca de 20 a 30 milhões nos Estados Unidos. Esse recorde se deve ao fato do Brasil ser o maior País tropical do planeta – os trópicos são regiões de alta freqüência de tempestades elétricas. Resultado: 5% a 10% de todos os óbitos mundiais por descarga elétrica ocorreu aqui, com prejuízos calculados em cerca de U$200 milhões de dólares por ano. Segundo Inpe, existem forte indícios que apontam um aumento de incidência de raios em grandes centros urbanos, tais como São Paulo e Belo Horizonte. O motivo, segundo os especialistas, seria o aumento de temperatura (ilhas de calor) e poluição existentes nestes centros.

Porém, em território brasileiro, a maior incidência de raios está na Região Amazônica, seguida pelas Regiões Centro Oeste e Sudeste. Os principais motivos seriam a umidade e o calor da Amazônia, e as cadeias de montanhas do Sudeste, devido às movimentações de frentes de ar.

Atmosfera terrestre

A atmosfera é constituída de cinco camadas: troposfera, estratosfera, mesosfera, termosfera e exosfera, O ar se torna mais rarefeito quanto maior a altitude, e é por isso que os alpinistas normalmente levam oxigênio com eles quando escalam montanhas. A troposfera é a única camada em que os seres vivos podem respirar normalmente.

Troposfera – Essa camada se estende até 20 km nos pólos.

Estratosfera – Chega a 50 km do solo. A temperatura vai de 60º C negativos na base ao ponto de congelamento na parte de cima. A estratosfera contém ozônio, um gás que absorve os prejudiciais raios ultravioletas do sol. Hoje, a poluição está ocasionando buracos na camada de ozônio.

Mesosfera – O topo da mesosfera fica a 80 km do solo. É muito fria, com temperaturas abaixo de 100ºC negativos. A parte inferior é mais quente porque absorve calor da estratosfera.

Termosfera – O topo da termosfera fica a cerca de 450 km acima da Terra. É a camada mais quente, uma vez que as raras moléculas de ar absorvem a radiação do Sol. As temperaturas no topo chegam a 2.000ºC.

Exosfera – A camada superior da atmosfera fica a mais ou menos 900 km acima da terra. O ar é muito rarefeito e as moléculas de gás "escapam" constantemente para o espaço. Por isso é chamada de exosfera (parte externa da atmosfera)

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